Drama e desenho
É tudo que eu tenho
De tempos em tempos eu leio meu texto do cigarro, pra não esquecer da jornada que foi decidir parar de fumar e a outra jornada até conseguir. Esse mês completo 5 meses sem fumar, realmente parei, eu me conheço. Fiz dez anos fumando, só vou cogitar voltar depois de outros dez. Do assassinato eu reli algumas vezes também, seria melhor escrito se eu tivesse deixado dormir mais um dia antes de postar, daria pra enxugar mais. Eu gosto de escrever e sobretudo sinto que escrevo pra mim. Não tenho muito compromisso, se conseguir não contar mentira já tá ótimo. Minha atividade de verdade é o desenho, a linguagem dos quadrinhos, então a escrita acaba sendo mais leve.
Percebi que são todos o mesmo texto, o mesmo ritmo. Começa com uma regressão, chega num clímax e termina com um eco do início. Existe, imagine só, um espelho no meio do texto, separando as duas metades. Assim sendo, o mais difícil de escrever é até a metade. Do meio pro fim é só refletir tudo, fechando os parênteses que abri. Outra coisa é o EXAGERO, é tudo muito o MELHOR ou simplesmente o PIOR DO MUNDO, em caps louka. Se quero fazer um art statement não dá pra ficar no quase, nas nuances.
O de Olinda foi o mais relido por mim, a viagem de férias remuneradas que terminou no verdadeiro e autêntico Carnaval. Foi tão importante quanto meu intercâmbio para Holanda em 2015, um antes e depois de Cristo, salvo as devidas proporções porque o intercâmbio durou um ano. Mas 40 dias sem ligar o computador alteram a alma do trabalhador. A news saiu fácil, escrevi na segunda semana pós carnaval, completamente apaixonado e encantado com tudo que significava ser brasileiro. Não deveria ter escrito, podia ter desenhado. Nos quadrinhos a memória fica enquadrada, o sentimento está ali e você pode olhar pra ela o quanto quiser, a própria imagem, a memória manufaturada. Não conheço quem diz que a memória é uma palavra ou uma frase. Nunca é verbal, é visual. Ninguém contempla uma palavra, você lê e ela acaba, mas o quadrinho captura o PRESENTE INFINITO das coisas. Ai de você me falar que a fotografia capta o presente! Ela capta a mentira, nada como fotografia pra contar uma mentira. Não é a toa que a IA, máquina besta do apocalipse, domina a linguagem fotográfica. Peça pra ela um quadrinho ou pintura que ela faz uma entrega porca, mas uma foto poucos vão descobrir que é ilusão.
Mas agora já foi. O tanto que reli meu texto já contaminou a matéria prima que faria um quadrinho, tudo que eu desenhar agora seria uma simplória adaptação daquilo para outra linguagem. Uma verborragia que se esforça para ser imagem, completamente idealizada e esvaziada da primazia da memória. A palavra já é um ideal, mais literal que a fotografia. Da próxima vez que sentir tamanha inspiração, prometo aqui, farei um quadrinho, que é meu domínio, a MINHA ARTE. Não poderia desperdiçar escrevendo um único texto. É na primeira vez que o sentimento brota em imagem, e a segunda vez pode nunca acontecer. Se eu lesse crônicas de outros autores, ou livros, o tanto quanto releio as bobagens que escrevo, minha escrita seria muito melhor. Talvez meu desenho também. Até eu seria melhor.
Se escrevo para mim, por outro lado, parece que desenho para o outro. Na primeira publicação desse substack falei sobre só conseguir desenhar, hoje, se for para realizar uma entrega. Nunca mais desenhei como criança, que ficava horas com o sulfite no chão. Sentava, olhava a folha em branco e as imagens simplesmente dançavam pro papel. O ato declaratório da liberdade total. Hoje eu preciso de um mínimo BRIEFING, palavra amaldiçoada, mesmo que seja um trabalho autoral sem clientes.
Recentemente tenho conseguido, ou tentado, ou me desafiado a desenhar todo dia. Eu tinha essa prática na Holanda. A ânsia de produzir, de me sentir artista, me fez começar o projeto Sketch Diary, onde antes de dormir eu desenhava o que havia ocorrido no dia presente. Um exercício que me obrigava a fazer quadrinhos todo dia. Eram “Sketches”, palavra que me protegia do julgamento, rabiscava a memória direto no nanquim pra não vacilar. Cheguei a fazer 6 edições dos Sketch Diary, contando o primeiro semestre de intercâmbio, o que desbocou, no semestre final, na minha primeira HQ que conta o ano inteiro da viagem.
Comentei com minha analista, em mais uma sessão onde me desesperava com a passagem do tempo, sobre uma artista que risca OS SEGUNDOS no papel. O nome da obra é Counting seconds, ou “Contando Segundos” na língua de Deus, e a artista é Ana Amorim. Esse trabalho não saiu da minha cabeça. Ela diz que precisa de um registro comprovando que viveu aquele dia. Não separa a vida da arte, a vida é a arte e/ou o registro que ela faz, a prova que está VIVA. Por detalhes meramente técnicos, ornamentos da linguagem, ela não se diz quadrinista. Mas pelo menos pra mim, quadrinhos é exatamente o que faz.
De certa forma, ecoando o começo daqui, a hipérbole me resolve: o desenho sempre salva minha vida. No boleto mal pago, na proibição do tabaco, na porta do Uno que amassei, no ar condicionado que esqueci ligado, nos leitores que não são meus e no like que não recebi, o ato de desenhar ainda é um lugar seguro e construído por mim. Como disse Reginaldo Faria, num reels que scrollei, sobre a linguagem artística que lhe cabe: “a partir do momento que eu começava a escrever, a angústia desaparecia, porque eu me abstraia”.
Quadrinhos, por fim, são texto e imagem, mas o texto ainda sendo uma grafia. “Grafia”, do grego gráphein, que significa: pedro vó tem razão. Não só nas onomatopeias, mas dentro de qualquer balão o texto está escrito numa tipografia deliberada. Contar um texto em voz alta é possível, mas um quadrinho não, ele tem que ser visto. Entre os dois estou espremido, no meu drama que cria o verbo e nos meus gestos que o desenham. Busco alguma verdade e luto pra abrir mão das idealizações e da paranoia, das falsas imagens, para então sermos livres mais uma vez. É o que eu tenho pra oferecer.








Quero ser pedro vó e desenhar todo dia, escrever bonito e interessante, ter férias remuneradas (rs, o último é gracinha, mas o resto é verdade)
Gostei muito, principalmente da citação em latim, que Pedro Vô tem razao!!!